Friday, June 28, 2013

Quem não deve, não teme senhora...

Sejamos claros o povo português cansou-se! Cansou-se de sacrifícios que aceitou fazer, mas que não levam a lado nenhum. Cansou-se do pântano lodoso em que caíram algumas instituições nacionais, presas pelas tricas internas, pelo imobilismo cobarde ou pela simples apatia dos seus agentes. Cansou-se de não ser ouvido e de ser cada vez menos cidadão e apenas eleitor...

O povo cansou-se e saiu para as ruas. As manifestações de rua ganharam um ecletismo e um dinamismo extraordinário, quando não manietadas pelos sindicatos. O povo cansou-se de ser sereno e passou do sofá para o ladrilho com, muita gente, a vir para a rua pela primeira vez. Depois dos gritos de ordem na rua, o povo descobriu a "Grândola Vila Morena" como símbolo e a Grândolada começou a perseguir os membros do Governo, onde quer que estes fossem.

Hoje surgiu uma nova forma de protesto. Cerca de 20 reformados que assistiam aos trabalhos do Parlamento numa das galerias levantaram-se, em silêncio, sem interromper os trabalhos do plenário, e voltaram costas a todos os deputados. Voltaram costas aos mesmos políticos que lhes voltam costas todos os dias, e que agora lhes começam a sorrir de outro modo porque vai começar "a caça ao voto".

O protesto silencioso, fortemente simbólico, foi logo convidado a abandonar o Parlamento por Assunção Esteves, Presidente da Instituição, que demonstra cada vez mais a sua incapacidade de lidar com o contraditório. Nas últimas vezes que se ouviu cantar o "Grândola Vila Morena" nas galerias da casa da Democracia, Assunção Esteves foi peremptória, com um tom de voz esganiçado, na ordem de saída de quem apenas quer mostrar descontentamento.

Talvez Assunção Esteves não saiba, ou não quer saber, mas nos tempos da Monarquia pós-Convenção de Évora Monte (1834), as Galerias do Parlamento eram usadas para protestos populares que, obviamente eram convidados a sair do Parlamento, mas apenas após o protesto... Após o protesto... Porque, como o diz povo senhora, quem não deve não teme.

Assunção Esteves talvez não saiba mas o "ordeirismo", que falhou no passado, tende a ser desordeiro e num momento de desagregação social e de destruição de sonhos e expectativas não se pode almejar viver com o ritualismo intocado e achar que todos se submeterão a formalismos institucionais. O povo tem voz, quer ter voz e não tendo voz tem costas...


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