Thursday, March 28, 2013

A armadilha do silêncio...

A noite de ontem ficou marcada pela entrevista de José Sócrates na RTP. A noite de ontem estava, de resto, marcada desde que se anunciara a entrevista e (o subsequente) espaço de opinião pessoal. A entrevista ameaçava, desde cedo, trazer pouco de novo... Sócrates, orador inteligente mas nem por isso brilhante, tentou construir a imagem de um democrata enredado pelas intrigas do poder e da alta finança.

Sócrates, orador tão sagaz quanto repetitivo, tentou dar a imagem de que agiram nos bastidores para o derrubar e talvez por isso tenha dito que não concorreria a mais cargos políticos... O que quer dizer pouco, pois em 2000 também se dizia, em entrevista ao Diário de Notícias, indisponível para ser Primeiro-Ministro por não ter as qualidades necessárias... E depois foi o que se viu...

Sócrates, antes da entrevista, abriu o dicionário e descobriu a beleza das palavras "narrativa" e "mistificação" e repetiu-as até à exaustão. E assim muitas perguntas viveram de uma narrativa mistificada e outras de uma mistificação narrativa. Circundou-se, circundou-se, circundou-se e ficou-se a saber o mesmo. Ou quase o mesmo.

A parte que mais importou, pelo menos ao Fidalgo, foi aquela em que José Sócrates disse, com todas as letrinhas, que Cavaco Silva era culpado da crise política de 2011 que antecedeu o Memorando de (des)Entendimento com a Troika. Sócrates, conhecedor da atitude zombiesca do Presidente da República, atirou com palavras que ecoaram (e muito!) nos próximos dias: Cavaco Silva tinha uma agenda pessoal para derrubar Sócrates.

O Presidente da República, que deveria ser o fiel da balança, agiu com a parcialidade de quem é eleito com o apoio de uma máquina partidária. Agiu como agem os Presidentes, sem ser capaz da parcialidade que apenas aos monarcas compete. Sócrates mostrou-se inteligente ao saber jogar com os silêncios, demasiado longos e demasiado presentes, de um Presidente que mal preside...

É que agora Cavaco Silva fica em cheque, faça o que fizer. Se falar, como de resto terá feito no seu facebook, então mostra de facto que é politicamente parcial... Em outros momentos da vida nacional recente, perante ditos e actos de pior monta manteve-se sereno e silencioso, para não alimentar fogos dizia... Então e já reagiu? E ainda para mais ao encoberto da tecnologia sem rosto; de palavras que podem nem ser suas?

Se Cavaco Silva optasse pelo silêncio também perdia. Pois, diz o povo que muito sabe, quem não fala consente. E assim os silêncios de Cavaco tornaram-se na armadilha do mesmo. E o Presidente, qual donzela protegida por cavaleirescos comentadores e jornalistas, vai degradando a sua credibilidade; vai mostrando porque razão não devia presidir. Vai dando razão a quem não quer República nesta respublica.

E assim os silêncios de Cavaco e a sua atitude de encenador, que se diz sempre por trás dos bastidores, são agora dois gumes apontados para si. O mesmo Cavaco Silva que se auto-elogiou (de modo tão ridículo quanto inimiginativo!) nas suas mais recentes memórias biográficas tem agora que explicar porque fala tanto quando Sócrates fala e porque se cala tanto quando Passos Coelho faz... E então?


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